13 de novembro de 2010

de tinta seca

deixei-a descoberta e agora a minha tinta secou.
por mais que agarre esferográficas e pedaços de papel violado que preencha, tudo permanece inalterado.
a tinta não se faz ver e o papel vira-se virgem.
escrevo mas nada fica registado, não há mais tinta, de facto.
pareço mudo. o que possa falar é aquilo que não conseguirei documentar
e o que não é escrito não é dito, jamais. tudo acaba por desvanecer, como tinta devorada pela chuva de janeiro.
tenho tanto para dizer e tanto onde o escrever e não consigo que a minha caneta se me faça encarnar.
estes pedaços de mim que querem passar a ser palavras escritas, frases, prosa, sequências,
nunca morrerão num baú de madeira e trancas de ferro e cheiro a moedas de tostão.
poderia procurar outra forma de o fazer, outra caneta, outra tinta.
mas se o encontrar e as letras sairem desconfiguradas ou avessas ou difamadas ou até desconceituadas, será, da mesma forma, como se nascessem mudas.
não se pode construir história sem tinta. não se faz história lançando palavras ao vento.
preciso da minha tinta. preciso de voltar a ser caneta.

26 de janeiro de 2010

poupem-te

Cuspo-te pensamentos impacientes pois já não sou capaz de gritar.
Deixo-te coberta de saliva, de salpicos ensanguentados.
Bolço-te porque a garganta não solta palavras, apenas sonância.
Sons abafados e tão ásperos quanto a minha capacidade.
Já não há mais voz, mas grito. Grito sem ser capaz de gritar.
Grito-te como se o fim do mundo dependesse das minhas cordas vocais.
Grito mas não me faço ouvir. Faço-me ouvir, mas não te escuto resposta.
Esperneio do que resta da minha saúde. Sovado.
Das forças que evito à evaporação. Tosado.
Vejo-te, dorido, na tua própria dor.
Vejo-te mas não me vês,
Amarrada e vendada e amordaçada na minha frente.
Que te salvem.
Que me transformem num monte de carne negra, moída, odorante, mas que te poupem. Desta minha tortura, tu e eu, nossa, que te salvem.
A ti, eu escolho. A ti, eu salvo.
Que te salvem enquanto apenas posso gritar no silêncio da minha captura.

30 de junho de 2009

de futuro perdido

Magoa-me cada vez que respiro.
É uma dor que não é física, mas é mensurável, garanto.
É a dor de quem não sabe que rumo tomar. De quem o perdeu, de quem o vendeu.
É a dor da angústia de estar perdido, de não saber qual o caminho.
A dor que se sente quando se inspira.
A que não se afasta quando se expira.
Vou vivendo, mas não vivo. Sou um fantoche nas mãos do destino. Agora, apenas, uma serpente de olhos vendados.
Sempre que tento fugir à trajectória desejada sou alvejado.
Nunca atingido em partes vitais, uma espécie de castigo de quem dispara.
Hás-de arrastar-te sangrando, mas não morrerás, pensarão. Sofrerás, ao invés.
Foi, é e será a eterna paga do meu pecado.
O crime de quem se vendeu à entidade errada. Um erro comum de quem deseja conhecer aquilo que não merece.
O futuro a Deus pertence e ninguém o pode destapar.
A Ele pertence e assim se deve manter.
Jamais acreditem em quem vos queira vender a falsa pertença.

8 de maio de 2009

momentos

Vida.
A vida são momentos.
Momentos previamente definidos para cada ser.
Decididos e predestinados às coisas vivas.
Às que respiram.
As que respiram vida e portanto momentos.
Se nos alimentamos desses instantes, como será então a morte?
Se acontece em tão ínfimo espaço de tempo, não será somente mais um momento?
Haverá necessidade de temer tal inesperado?
E se o último momento vivido for o melhor alguma vez saboreado?
A resposta é incerta.
Morrer poderá, até, ser como um orgasmo infinito.
Só o saberemos nessa ocasião.
Só o saberemos nesse tempo. Nesse momento.
O último dos momentos.
Momentos. Instantes.
A vida é feita destes lances.
De um. Dois. De imensos, nunca infinitos.
A vida são momentos.
E a morte é só mais um…

22 de abril de 2009

somos vértices

Quem és tu que me exploras?
Quem és tu e porque me especulas?
Sou pouco e tu colossal.
És a razão do desafino de uma charanga.
Enquanto somente existo.
És o sol na escuridão enquanto eu
A escuridão ao sol.
O teu tom é doce e subtil.
O meu é violento e só te polui.
Porque não foges desta voz áspera?
Porque tentas mastigar as arestas,
Quando ambos somos vértices de um polígono?
Somos cantos distintos.
Ângulos desconhecidos.
Não podemos ficar juntos.
Nem sequer sei quem és,
E pareces demasiado grande…