30 de Junho de 2009

de futuro perdido

Magoa-me cada vez que respiro.
É uma dor que não é física, mas é mensurável, garanto.
É a dor de quem não sabe que rumo tomar. De quem o perdeu, de quem o vendeu.
É a dor da angústia de estar perdido, de não saber qual o caminho.
A dor que se sente quando se inspira.
A que não se afasta quando se expira.
Vou vivendo, mas não vivo. Sou um fantoche nas mãos do destino. Agora, apenas, uma serpente de olhos vendados.
Sempre que tento fugir à trajectória desejada sou alvejado.
Nunca atingido em partes vitais, uma espécie de castigo de quem dispara.
Hás-de arrastar-te sangrando, mas não morrerás, pensarão. Sofrerás, ao invés.
Foi, é e será a eterna paga do meu pecado.
O crime de quem se vendeu à entidade errada. Um erro comum de quem deseja conhecer aquilo que não merece.
O futuro a Deus pertence e ninguém o pode destapar.
A Ele pertence e assim se deve manter.
Jamais acreditem em quem vos queira vender a falsa pertença.

8 de Maio de 2009

momentos

Vida.
A vida são momentos.
Momentos previamente definidos para cada ser.
Decididos e predestinados às coisas vivas.
Às que respiram.
As que respiram vida e portanto momentos.
Se nos alimentamos desses instantes, como será então a morte?
Se acontece em tão ínfimo espaço de tempo, não será somente mais um momento?
Haverá necessidade de temer tal inesperado?
E se o último momento vivido for o melhor alguma vez saboreado?
A resposta é incerta.
Morrer poderá, até, ser como um orgasmo infinito.
Só o saberemos nessa ocasião.
Só o saberemos nesse tempo. Nesse momento.
O último dos momentos.
Momentos. Instantes.
A vida é feita destes lances.
De um. Dois. De imensos, nunca infinitos.
A vida são momentos.
E a morte é só mais um…

22 de Abril de 2009

somos vértices

Quem és tu que me exploras?
Quem és tu e porque me especulas?
Sou pouco e tu colossal.
És a razão do desafino de uma charanga.
Enquanto somente existo.
És o sol na escuridão enquanto eu
A escuridão ao sol.
O teu tom é doce e subtil.
O meu é violento e só te polui.
Porque não foges desta voz áspera?
Porque tentas mastigar as arestas,
Quando ambos somos vértices de um polígono?
Somos cantos distintos.
Ângulos desconhecidos.
Não podemos ficar juntos.
Nem sequer sei quem és,
E pareces demasiado grande…

1 de Abril de 2009

mentiras

O dia das mentiras.
Hoje é esse dia.
O mais verdadeiro dos dias e é o das mentiras.
É o único em que se mente e logo se desmente.
O dia das mentiras desmentidas.
O dia das mentiras desmedidas.
Mas todo o mundo está ciente da verdade de cada uma delas.
Dessas mentiras que, por si mesmas, se alimentam.
Que se autodestroem, inertes, depois de contada toda a sua história.
Um conto de ficção que não se revela ameaçador.
O dia das mentiras.
O dia jocoso do decremento do Decálogo.
Hoje não é só dia dos inseguros ou dos sacanas.
É o dia dos falsos mentirosos.
Dos que nem precisam de cruzar os dedos.
Pois é o dia das ilusões sem valor.
O curioso dia das mentiras.

5 de Março de 2009

sorriso na luz

A cidade ainda me castiga com o teu cheiro.
Com a tua alegria.
Vejo o teu sorriso em todos os cantos iluminados.
Em todos os sítios onde nasce e vive essa energia.
Fomento a tua saudade. É legítimo, não consigo omiti-lo.
Queria seguir as tuas pegadas, mas não te encontro o caminho.
A cidade ainda me castiga com o teu cheiro.
E eu não o consigo perseguir.
Esse rasto que se perde nos mares que nos separam.
Onde, oxalá, as margens não se repelissem como ímanes em confronto.
Onde mil barcos naufragaram no próprio destino.
A cidade ainda me castiga com o teu cheiro.
E o meu desígnio não consegue escapulir-se.