13 de novembro de 2010

de tinta seca

deixei-a descoberta e agora a minha tinta secou.
por mais que agarre esferográficas e pedaços de papel violado que preencha, tudo permanece inalterado.
a tinta não se faz ver e o papel vira-se virgem.
escrevo mas nada fica registado, não há mais tinta, de facto.
pareço mudo. o que possa falar é aquilo que não conseguirei documentar
e o que não é escrito não é dito, jamais. tudo acaba por desvanecer, como tinta devorada pela chuva de janeiro.
tenho tanto para dizer e tanto onde o escrever e não consigo que a minha caneta se me faça encarnar.
estes pedaços de mim que querem passar a ser palavras escritas, frases, prosa, sequências,
nunca morrerão num baú de madeira e trancas de ferro e cheiro a moedas de tostão.
poderia procurar outra forma de o fazer, outra caneta, outra tinta.
mas se o encontrar e as letras sairem desconfiguradas ou avessas ou difamadas ou até desconceituadas, será, da mesma forma, como se nascessem mudas.
não se pode construir história sem tinta. não se faz história lançando palavras ao vento.
preciso da minha tinta. preciso de voltar a ser caneta.

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